Internacionalizar: o sonho, o desafio e a ciência por trás disso
Quando alguém fala em internacionalização, muita gente já imagina o glamour: reuniões em cafés parisienses, taça de vinho na mão, amêijoas à Bulhão Pato com vista para o Tejo, catamarãs passando devagar… ou até um fim de tarde no Rio de Janeiro com aquele pôr do sol que parece pintado à mão.
Só que, nos meus atendimentos, a conversa é bem mais pé no chão. Eu sempre pergunto:
“Se você não consegue vender para outra cidade aí do lado, como vai vender para outro país?”
Não é provocação, é neurociência aplicada aos negócios. Nosso cérebro adora ficar no que é conhecido. E internacionalizar exige sair dessa zona, encarar o fuso horário, entender culturas e aceitar que o que funciona no seu bairro pode ser um fiasco do outro lado do oceano.
Não é só sobre idioma
Quando resolvi internacionalizar a minha marca, precisei aprender muito sobre cada região onde eu queria expandir.
Tive que deixar de olhar como turista, esquecer aquele canal de viagens com cenários lindos, curiosidades culturais e informações de geografia.
O jogo real é outro:
- O que essa cultura valoriza?
- Como esse cliente toma decisão?
- O que ele considera caro, barato ou justo?
Porque não adianta traduzir seu catálogo, sorrir no Zoom e achar que “o mundo vai te amar” só porque a sua cidade, seus amigos ou aquele grupo fiel de clientes já te ama.
Até sorvete para pinguim
Eu sempre digo: você pode até internacionalizar sorvete para pinguim no Alasca. É possível, sim!
Mas para isso, você precisa saber quem compra, por que compra e quanto está disposto a pagar.
E principalmente: se o seu produto aguenta a viagem, seja ela física, digital ou de conceito.
O mito do “é só abrir um PayPal”
Muita gente chega dizendo:
“Vou habilitar um PayPal ou receber via Wise e pronto.”
E eu já aviso: não é assim que funciona.
E mesmo que você diga:
“Mas meu produto é digital, é serviço…”
Meu amor, existem regras em cada país para isso também, tributação, exigências fiscais, até licenças específicas.
Quando recebo empreendedores com o negócio estagnado ou que não conseguem expandir, meu papel é mostrar o como e o quanto isso é viável.
E aí vem a pergunta que sempre arranca risos:
“Você está preparado para viver no fuso?”
Porque, no fim, não é só sobre dinheiro. É sobre emocional, inteligência emocional e ter um plano de negócios que vai além da planilha do Excel um plano que coloca os pés no chão e mostra a realidade, não só os sonhos.
Imperflacionando o sonho
Vejo muito empreendedor dizendo:
“Vou vender para a Europa e América do Norte e ganhar seis vezes mais!”
E aí… imperflacionam o produto.
Sou obrigada a trazer meu balde de água fria e dizer: “Calma, não é bem assim.”
Também vejo pessoas da Europa, América do Norte e outros países pensando:
“Vai sair mais barato comprar de fora, vou aproveitar.”
E eu atendo muita gente da Europa, tenho clientes nos EUA e na Ásia, e sempre digo: não é bem assim.
Quando a compra cruza fronteiras e chega na dona Alfândega, a história muda: entram Incoterms, IVA, direitos aduaneiros, taxas extras… e aquela economia esperada vira um custo que ninguém colocou na planilha.
O que poucos usam (mas está aí)
Internacionalizar é também saber explorar as ferramentas certas:
- Brasil: o Banco do Brasil permite receber em outras moedas (mas cuidado com as taxas).
- Portugal: o programa Acelerar 2030 ajuda empresas com capacitação, mentoria e apoio à digitalização.
- França: a Business France conecta empresas francesas ao mundo, com apoio jurídico e de mercado.
- EUA: a Small Business Administration oferece programas como Export Express e International Trade Loans, com taxas muito competitivas e apoio ao exportador.
As Câmaras de Comércio ajudam muito a abrir portas e conectar com parceiros certos.
Mas também, fuja de alguns grupos de networking, meu amor… não existe mágica. Networking bom é aquele que gera valor real, não promessas vazias.
E, sim, tenha um bom contabilista, eu tenho duas, uma em Portugal e outra no Brasil.
Um bom advogado também é indispensável.
E contratos? Não vai fazer no fio do bigode, né?
Reflexão final
Eu já internacionalizei a minha marca. Hoje, trabalho com produtos físicos e digitais e posso te dizer: ter uma boa equipe faz toda a diferença, um marketing bem-feito ajuda mil vezes… mas acreditar no seu negócio, meu amor, te leva aos quatro cantos da Terra.
Internacionalizar não é só atravessar fronteiras, é atravessar a sua própria forma de pensar.
Você precisa trocar o olhar de turista pelo olhar de quem entende o mapa, lê entrelinhas e sabe que cada porto tem suas regras.
No fim, não é sobre mudar seu negócio para caber no mundo. É sobre fazer o mundo entender o seu valor único, seja tomando vinho em Paris, vendo barcos no Tejo, negociando no Pão de Açúcar.
Com Amor,
Carol Pereira


