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Entre Muros e Pontes: A Liderança Feminina no Sistema Prisional

Estar à frente da gestão de uma unidade prisional masculina sendo mulher é, todos os dias, um ato de resistência, de coragem e, principalmente, de equilíbrio. É caminhar sobre uma linha tênue entre autoridade e humanidade. Não é simples, e nem deveria ser. Mas é necessário.
Eu sou policial penal. Sou mulher. E exerço uma função de liderança dentro de uma penitenciária onde quase todos os olhares — dos custodiados, dos colegas de trabalho, da própria estrutura — ainda se surpreendem ou questionam minha presença naquele lugar. No começo, tentei endurecer, talvez como defesa. Mas aprendi que ser firme não é o mesmo que ser dura. E que a empatia, longe de ser um ponto fraco, pode ser o elo que sustenta a ordem onde reina o confinamento.
Convivendo diariamente com homens privados de liberdade, aprendi que o cárcere transforma — e não apenas quem está preso. Ele também muda os profissionais que o enfrentam todos os dias. O ambiente é tenso, denso. Existe um peso que se carrega mesmo fora dos muros. O policial penal, por mais treinado que seja, não sai ileso. Muitos de nós vamos, pouco a pouco, nos blindando emocionalmente, como forma de autoproteção. Mas essa blindagem, se não for consciente, vira frieza. E aí, corremos o risco de esquecer que lidamos com pessoas. E nós também somos pessoas.
Sempre que possível, tento lembrar à minha equipe — e a mim mesma — que ninguém deveria ser reduzido ao seu pior erro. Isso não significa passar a mão na cabeça, relativizar crimes ou deixar de aplicar a disciplina. Mas significa reconhecer que o sistema penal precisa ir além da punição. Precisa ter propósito. E esse propósito passa pela humanização, pelo reconhecimento de que haverá retorno à sociedade — e que tipo de retorno queremos promover?
A liderança feminina, nesse ambiente, traz um olhar diferente. Às vezes, é mais questionada. Muitas vezes, subestimada. Mas com o tempo, percebi que também é mais observada — e por isso mesmo, pode ser mais transformadora. A mulher gestora tem a chance de mostrar que é possível comandar com firmeza sem abrir mão da escuta, do cuidado, da estratégia emocional. Autoridade não precisa gritar para ser respeitada.
Sou cobrada por ser firme e, ao mesmo tempo, esperam que eu seja sensível. E talvez esse seja exatamente o meu ponto de força. Minha experiência me mostrou que, dentro dos muros, a disciplina é essencial — mas é a escuta que muitas vezes evita o conflito. E que a empatia não é concessão: é ferramenta de gestão.
Por isso, acredito que a humanização do sistema prisional começa na forma como ele é liderado. E ser mulher nesse lugar é também uma oportunidade de romper ciclos: de mostrar que o controle e o cuidado podem caminhar juntos, que segurança e dignidade não são opostos.
O confinamento muda o ser humano. Muda quem está preso. Muda quem cuida. Muda quem comanda. A diferença é que alguns escolhem negar essas mudanças — outros, como eu, tentam usá-las como aprendizado.
Se queremos um ambiente justo e igualitário dentro da desigualdade proposta, precisamos estar “dentro” dessa proposta e imersos na necessidade constante de nos reinventar diariamente. E quem está dentro precisa ser lembrado todos os dias: ainda somos humanos. E somos apenas homens e MULHERES, porque sim as MULHERES estão aqui e são parte importante, potente e transformador desse ciclo de liderança e confinamento.

Gabriela Avila